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Pastoral, Reflexões

Também acredito na igreja

Há uma expectativa ilusória sobre o ambiente comunitário da fé. As pessoas se frustram quando neste, são desprezadas ou feridas. Natural. Um lugar que pretende ser reflexo do ambiente celestial deveria também ecoar sua perfeição.

Porém, ainda que óbvio, é preciso reafirmar-se: igreja local são pessoas. Tão imperfeitas e complicadas quanto você e eu. Nossas neuroses são apenas diferentes, mas igualmente perturbadoras.

Por mais contraditório que pareça, talvez seja esse o ambiente mais favorável ao aperfeiçoamento, porque não há lapidação sem pressão! Como disse Rubem Alves, “uma ostra que não foi ferida não produz pérolas”.

Aos que tiveram seus corações feridos numa comunidade de fé, talvez seja revoltante o poetizar da dor, mas seria incoerente reproduzir o caminhar com Jesus sem o beijo dos Judas ou a negação dos Pedros.

A igreja não mudou. Para cada altruísmo de um Filho da Consolação existe um casal de Ananias e Safiras mentindo ao Espírito Santo. Em cada aliança de amizade sincera, ainda existem Paulos e Barnabés discutindo e se separando.

Contudo, não fazer parte de nenhuma comunidade de fé por estas serem imperfeitas é requerer para si um adjetivo que somente Cristo o pode carregar, o de perfeito. Alegar que é melhor isolar-se da comunhão do que pecar na murmuração é disfarçar a própria falta de amor.

Não desista da igreja! Lembre-se: ela começou com alguém que negou o Cristo por 3 vezes, mas teve uma nova chance. E este alguém era apenas uma pedrinha como você e eu.

Tolere as pedrinhas, firme-se na Rocha.

No amor do Pai,

Roger

(*) Grato ao Pr. Diego, pela amizade e inspiração.

Pastoral, Reflexões

Mais uma tragédia acaba de acontecer!

Num único dia, ainda em fevereiro, vimos no noticiário o que parecia ser a Retrospectiva 2019. A morte do jornalista Ricardo Boechat precedia as cenas dos enterros dos adolescentes jogadores do Flamengo e de notas sobre os corpos soterrados em Brumadinho. Ainda temos as notícias sobre o temporal no Rio que deixou 7 mortos, e a guerra entre polícia e bandidos que contabilizou 13 mortes em Santa Tereza, Rio de Janeiro. Ao todo, só neste início de ano, já morreram 350 pessoas vítimas de tragédias no Brasil, além dos 160 desaparecidos em Brumadinho, já dados como mortos.

Eu jamais seria leviano em minimizar a importância de todos esses acidentes, incidentes e tragédias. Como cristãos e humanos, é nosso dever orar, prestar condolências, externar nossa indignação e, acima de tudo, agir como verdadeiros filhos do Eterno em algum tipo de engajamento social que minimize a dor dos sobreviventes. O único sentimento que pode aliviar o clima desesperador sob o qual estamos vivendo este ano é a fraternidade e o respeito pela dor humana. Somos frágeis e extremamente vulneráveis.

Porém, é preciso lembrar que o país só está constrangido e entristecido porque todos esses fatos chegaram ao nosso conhecimento. E é aqui que compartilho com você um contraponto a todo esse cenário de tragédias. Todos os dias, pessoas estão morrendo não apenas ao redor do mundo, mas muitas vezes ao nosso lado. Não me refiro à acidentes ou incidentes, mas às dores da alma, que na maioria das vezes acabam matando lentamente, dia a dia, silenciosamente.

Há alguns dias, decidi compartilhar no Instagram, um pouco do período de depressão pelo qual passei. Longos dias trancafiado num quarto, sem querer ver ninguém, reunindo forças para receber pelo menos minha filha. Quando dei por mim, já fazia mais de 1 ano esta situação. Ao pincelar isso nos Stories, recebi uma enxurrada de depoimentos de amigos, muito próximos, que sofrem deste mal, alguns deles, inclusive, que tentaram o suicídio (estou falando de amigos próximos!). Fui obrigado a suspender o assunto porque não dei conta de tanta gente pedindo conselhos e ajuda. Estou pedindo a Deus, em oração, que me direcione a uma forma de ajudar essas pessoas.

Mas a verdade é que, mais do que postar lamentos nas redes sociais, precisamos olhar à nossa volta e fazer um exercício dos mais simples do mundo: se importar! Porque a cada minuto acontecem tragédias pessoais debaixo do nosso nariz, e nós simplesmente ignoramos. É nobre entristecer-se com todas essas tragédias nacionais, mas precisamos também olhar com cuidado as tragédias locais.

Você pode ser um cristão dedicado, conhecedor da Palavra, frequentador de cultos dominicais, mas se não decidir se importar com o seu vizinho, nas palavras bíblicas, seu próximo, você estará falhando completamente na sua missão.

Você não precisa de formação pastoral, psicológica ou mesmo cristã para se importar. Não é a sua missão resolver o problema do outro, mas é seu dever humano simplesmente ouvir. E acredite, isso já será o início de uma provável terapia. Que o Senhor nos dê empatia.

No amor do Pai,

Roger

Pastoral, Reflexões

Você precisa começar a dizer o que sente

Você deve conhecer aquele discurso inflamado do tipo: “Ah, filha… eu não levo desaforo pra casa, não! O que eu tenho que dizer eu falo na cara mesmo! Prefiro ser assim do que essas pessoas que ficam falando pelas costas” É quase evidente que as pessoas que agem com essa agressividade são provavelmente inseguras e tentam compensar essa baixa autoestima rebaixando, humilhando ou até ferindo os outros.

Porém, há um outro extremo igualmente nocivo: pessoas que são incapazes de expressar suas emoções. Gente passiva que está do outro lado dos desaforados, ouvindo e sofrendo calada todo tipo de agressão emocional que se possa imaginar. Já me disseram que essas pessoas somatizam enfermidades e, em algum momento, acabam “explodindo” e despejando tudo o que não disseram naquela hora em alguém que não tem absolutamente nada a ver com os problemas do indivíduo.

Nem é preciso dizer que pessoas com tais distúrbios precisam de auxílio médico urgente, certo? Contudo, partindo do pressuposto que você é emocionalmente saudável, mas percebe esse desequilíbrio em si, permita-me lhe dar uma palavra bíblica sobre o assunto.

A Bíblia é extremamente clara quanto ao nosso posicionamento diante de agressões emocionais: “Não retribuam a ninguém mal por mal. Procurem fazer o que é correto aos olhos de todos. Façam todo o possível para viver em paz com todos.” (Rm. 12.17-18). Perceba que Paulo é equilibrado ao ponto de reconhecer que é preciso muito esforço para viver assim.

Agora, equilibre a balança pelo ensino do mesmo apóstolo: “Recomendo-lhes, irmãos, que tomem cuidado com aqueles que causam divisões e colocam obstáculos ao ensino que vocês têm recebido. Afastem-se deles. Pois essas pessoas não estão servindo a Cristo, nosso Senhor, mas a seus próprios apetites. Mediante palavras suaves e bajulação, enganam os corações dos ingênuos.” (Rm. 16.17-18)

Assim, não é preciso engolir tudo aquilo que te faz mal simplesmente para agradar os outros em nome do amor em Cristo. Até porque, o mesmo livro de Romanos nos diz que “o amor deve ser sincero” (12.9), ou seja, sem hipocrisia, sem máscaras.

Você pode sim, se afastar de pessoas que causam divisões na igreja e continuar expressando seu amor em oração por elas. E nem é preciso “dizer as verdades na cara da pessoa” em nome de uma pseudo preocupação espiritual. Isso é demoníaco, porque o verdadeiro amor é expresso em “ação e em verdade” (I Jo. 3.18).

Ficou triste com a amiga? Diga! Não gostou da brincadeira do amigo? Fale pra ele! Gostaria de mais atenção do mozão? Por que não dizer isso com respeito e amor? Você precisa começar a dizer o que sente, antes que isso corroa a sua alma.

No amor do Pai,

Roger