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Esperança, Reflexões

Depressão: o corte que não sangra

Permita-me ser claro com você, eu evito falar sobre o período mais sombrio que enfrentei em minha vida, por três motivos. Primeiro, porque cuido da minha saúde emocional com zelo, visto que há uma possibilidade das lembranças me atormentarem. (Sim, Jesus cura depressão, mas é um processo, não um banho de amnésia). Segundo, porque jamais usaria de um vitimismo barato para alcançar qualquer tipo de visibilidade. E terceiro, porque não tenho formação na área de psicologia, por isso, sempre deixo muito claro que o que vemos em Aconselhamento Pastoral restringe-se ao ambiente acadêmico e ao acolhimento em amor daqueles que nos procuram.
 
Porém, por nos calarmos, muitas pessoas acreditam que elas são as únicas que passam por problemas emocionais. Além disso, muitos cristãos, por estarem sob o preconceito do “depressão é falta de Deus”, sentem vergonha de admitir suas batalhas, às vezes, diárias, com essa enfermidade. Você precisa entender que a maioria dos crentes tem um mal: eles não admitem não ter resposta para tudo, acham isso uma fraqueza, e por isso dizem qualquer coisa: “Isso é mistério…”, “As coisas encobertas são para Deus”, “O que faço agora entenderás no futuro…” e um monte de outras frases vazias e descontextualizadas que, na verdade, apenas denotam nossa preguiça na busca pela sabedoria.
 
Então, queria muito que você soubesse: sim, eu sei o que é ter que parar o carro no acostamento de uma rodovia por uma síndrome do pânico. Um desespero descomunal que lhe tira o controle das atividades mais corriqueiras. Eu sei o que é sentir a queda de pressão ao ponto de quase desmaiar por uma simples notificação de celular (eu vivi isso por 1 ano inteiro!). Eu sei o que é passar noites em claro querendo chorar pra ver se há um pequeno alívio da dor no peito, mas por algum motivo, o organismo simplesmente não permite o choro. Em um desses dias, liguei para minha mãe em desespero às 5:00 da manhã! A oração dela serviu-me de anestésico nesse dia, e eu simplesmente adormeci com o celular na mão.
 
Um dia, durante uma sessão de aconselhamento, minha conselheira disse que enquanto eu desabafava, eu olhava fixamente para a sacada. Ela me disse, posteriormente, que minha postura, a perna inquieta e a projeção para a janela davam-lhe a entender que eu me jogaria a qualquer momento. Ela disse que ficou preparada para se jogar em cima de mim, se fosse preciso. E eu poderia lhe contar uma dezena de outras situações, mas só quero que você entenda uma coisa: você não é o único! Você não é a única! Meu objetivo com esse texto é apenas um: gerar esperança no seu coração. Para isso, embora nesses processos tudo seja muito subjetivo, permita-me também lhe dizer no que eu creio.
 
Creio que Jesus cura depressão!
 
Talvez, a falta de fé nessa afirmação seja o nosso [pré] conceito quanto à forma de Jesus efetuar essa cura. Esperamos o milagre instantâneo. Esperamos o mover das águas em um culto especial. Esperamos a palavra de profecia. Sim, eu creio em tudo isso, mas há também outra forma de Jesus curar: Ele cura através de pessoas! Se a igreja é o corpo de Cristo, com suas muitas funções, uma delas é nos curar. A Bíblia diz que quando confessamos as nossas culpas uns aos outros, através dessa oração mútua, somos curados (Tg. 5.16). Oras, sabemos que a culpa está ligada aos gatilhos mentais que desencadeiam os processos de depressão. Por isso, afirmo sem medo, a Palavra de Deus e a oração de um justo podem lhe trazer um efeito terapêutico poderosíssimo! Faça uso sem qualquer restrição.
 
E os psicólogos? Bom, assim como existem bons médicos e médicos ruins, existem os bons e os maus psicólogos. Não posso afirmar que um psicólogo cristão seja melhor que um que não professe a nossa fé, tudo o que posso dizer é que se aquele profissional desmerecer, desprezar ou atacar a sua fé, este profissional é ruim. Por outro lado, lembre-se que muitos problemas emocionais vêm de uma expectativa errônea a respeito da nossa fé. Portanto, nada melhor do que buscar a ajuda do seu pastor e de um bom médico simultaneamente.
 
Finalmente, e o diabo? Bom, respeito quem pensa diferente, mas pra mim, ele se aproveita, sim, dessa enfermidade para nos oprimir e afastar dos caminhos de Deus. Acredito que, tal como a brincadeira do dominó, uma peça vai derrubando a outra. Nos frustramos em algum momento da vida, permitimos uma raiz de amargura brotar, nos afastamos de Deus, o diabo aproveita a brecha pra nos oprimir… e assim, tudo vai desmoronando aos poucos. Mas não se preocupe com ele, como sempre me ensinou minha mãe: repreenda-o! Nós não temos ideia, de fato, do poder que há no nome de Jesus. Sempre que os pensamentos depressivos me vinham à mente, eu seguia o exemplo do salmista e falava com a minha alma: “Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada dentro de mim? Ponha a sua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei; ele é o meu Salvador e o meu Deus!” (Sl. 42.11). Depois disso, eu me dirigia ao perdedor: “Ei, diabo, eu te repreendo em nome de Jesus! Fora daqui com esses pensamentos malignos!”
 
Olha, se você chegou até o fim desse longo texto, é porque você está realmente interessado no assunto, e isso demonstra o quanto você se preocupa com alguém que você ama ou consigo mesmo. Para você, minha palavra de carinho, amor e esperança: vai passar! A propósito, você sabia que a Bíblia manda você se amar? Ela o diz de forma indireta, quando Jesus diz para amarmos o outro como nos amamos (Mt. 22.39). Oras, a Bíblia é uma espada que corta dos dois lados – se você não se amar, como poderá cumprir esse mandamento? Cuide-se! Busque ajuda, ok?
 
Que Deus te abençoe! Estou orando por todos os que tiverem a oportunidade de ler essa mensagem. E se você conhece alguém que está passando por um tempo assim, compartilhe!
 
No amor do Pai,
 
Roger
Pastoral, Reflexões

Parábolas da ansiedade

Algumas vezes, Jesus falava por parábolas para facilitar a compreensão de alguns princípios, outras vezes, o fazia para restringir a compreensão apenas aos escolhidos. Esta geração não lê. Os comentários bíblicos, estudos e artigos tornaram-se as parábolas de nosso tempo, facilitam a compreensão, mas são verdadeiras mensagens criptografadas para essa geração, não é à toa que ela escreve tão mal e morre de ansiedade.

Porém, seguindo o bom e velho conceito de oferta e demanda, essa ansiedade precisa ser saciada em 15 segundos de uma “storie” ou, no máximo, em um videozinho rápido que mastigue bem a mensagem. Quem vai perder 30 ou 40 minutos num vídeo de pregação genuinamente bíblica, por exemplo? Na verdade, se você está lendo esse texto até aqui, você é privilegiado, sim!

Mas a maior ansiedade entre os crentes, sem dúvida, é a tal da questão da honra. Em Seu célebre Sermão da Montanha, Jesus nos disse para nos alegrarmos quando fôssemos humilhados por Sua causa. Mas não só isso, nos garantiu que, por conta disso, teríamos uma recompensa no Céu. Parece-me que essa não tem sido a filosofia de vida de muitos cristãos. Não apenas não admitem serem humilhados, como esperam receber honra aqui. E o pior, na maioria esmagadora dos casos, a tal humilhação é por conta de brigas ridículas dentro da igreja por opiniões diferentes ou simplesmente por consequência de seus próprios pecados, afinal, “de que se queixa o homem”? (Lm. 3.39)

É em meio a esse cenário de ansiedade e busca por honrarias nesta vida que proliferam as pregações e canções “afaga ego”. Mensagens que partem de princípios bíblicos, mas sutilmente são infestadas de gatilhos mentais que apenas alimentam (e saciam) o desejo pecaminoso de se ver recompensado na frente de seus inimigos. Inimigos esses, muitas vezes, filhos do mesmo Pai e membros da mesma igreja local.

A sutileza desse evangelho humanista diz que Deus honra os Seus aqui para que Ele seja glorificado. Já o evangelho genuíno diz que Ele é glorificado quando damos muitos frutos! (Jo. 15.8)

O evangelho antropocêntrico ainda utiliza textos da antiga aliança para justificar seu anseio pela honra. Alegam que Deus disse que “honraria aos que lhe honrassem” (1 Sm. 2.3). Insensatos! Se esquecem de que a continuação do versículo, “…os que me desprezam serão desprezados”, foi rescrita na cruz, pela Palavra do Bom Pastor que busca a ovelha desgarrada, que através da Sua imaculada igreja insiste com o mais terrível dos pecadores e que arremata cabalmente ao nos garantir que “se somos infiéis, ele permanece fiel” (2 Tm. 2.13). Glória a Deus!

Na nova aliança, segundo a tradição, Pedro teria rejeitado a honra de ser crucificado como o seu Senhor, e insiste que o crucifiquem de cabeça para baixo! O mesmo Pedro e alguns apóstolos, talvez com as costas ainda sangrando dos açoites, “saíram do Sinédrio, alegres por terem sido considerados dignos de serem humilhados por causa do Nome.” (At. 5:41). Me faltaria tempo para citar todas as vezes que esses homens que andaram com Jesus ressignificaram a palavra “honra”, mas Pedro… ah, esse realmente mudou o sentido de “honra”, dizendo “…alegrem-se à medida que participam dos sofrimentos de Cristo, para que também, QUANDO a sua glória for revelada, vocês exultem com grande alegria.” (1 Pe. 4:13).

Acorda, igreja! Não aceite essa anestesia dominical que tenta compensar as dores do caminhar com uma promessa de honra nesta vida que o Senhor Jesus jamais aprovaria. Nossa maior honra foi sermos vivificados quando estávamos ainda mortos em nossas ofensas e pecados. Deus não é glorificado quando somos honrados em detrimento de outros, por sua humilhação. Deus é glorificado quando refletimos o Seu caráter, Sua mansidão e Seu amor.

Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas. Glória, pois, a Ele eternamente. Amém! (Rm. 11.36)

No amor do Pai,

Roger

Provações, Reflexões

Não dá pra pular etapas

Eu tive depressão. Por um ano, fiquei trancado na casa dos meus pais. Não ia à igreja, não passeava, não comia direito, fugi dos amigos, fugi dos meus pastores, fugi da vida. Meu espaço de existência se resumia a um quarto. Com um esforço descomunal, conseguia caminhar pelas manhãs e isso me fazia bem, mas a noite chegava. Sempre chegava.

E dentre tantos amigos preciosos, Deus me presenteou com várias psicólogas, profissionais experientes e capacitadas que me auxiliavam a não me perder de vez. Mas de todas elas, sem dúvida, a mais experiente era mamãe.

Mamãe não é graduada em nada, embora tenha sido gerente financeira de uma indústria. Mamãe fala bem, se relaciona com Deus e o mundo (literalmente), tem uma inteligência extraordinária, mas nada disso se compara com sua maior arma: mamãe ora.

Você pode ser a pessoa mais influente do mundo, ter milhares de seguidores, grana, status, prestígio e poder… tudo isso é pó diante de uma pessoa que ora. Se você for agora à casa dos meus pais, enquanto eles estão no trabalho, verá no cantinho do sofá uma fralda dobradinha. Sim, porque lenço não dá conta de orações da alma de uma mãe convertida.

No meu processo de terapia com essa mulher de oração, muitos foram os conselhos, reflexões e puxões de orelha, mas uma de suas frases, em especial, se tornou meu mantra naquele ano de calabouço: “Filho, não dá pra pular etapas”.

Eu não sei como isso funciona na didática acadêmica, mas na terapia que tive à base do jejum, oração, Bíblia e conselhos, entendi que a melhor maneira de superar os processos de dor é encarando-os. Mamãe certamente não sabia que a última fase do luto é a aceitação, mas há um Deus nos Céus que revela aos Seus o profundo da sabedoria.

Eu sei que quando estamos nos processos de perda e dor, nosso desejo é simplesmente nos livrar daquilo que nos aflige. Porém, não dá pra ir do verão à primavera! É preciso contemplar suas folhas caindo, e entender que, mesmo que você tenha semeado bem, não é você que as sustém. E mais, antes de novamente florescer, você vai passar frio, provavelmente sozinho, e vai ter que se virar para se aquecer.

Infelizmente, a vida não é tão bela quanto a poesia. Sua realidade, às vezes, é cruel e injusta. Mas Deus sempre nos dá uma âncora que podemos jogar ao mar em tempos de desespero para não nos perdermos na tempestade. A minha âncora é uma mãe de joelhos todos os dias por minha vida. À ela, meu carinho, respeito, amor e submissão neste dia tão especial em que posso dizer: “Feliz aniversário, mãe. Te amo!”

No amor do Pai,

Roger