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Pastoral, Reflexões

Admirável

Era o último culto de domingo antes da virada e fui me despedir do Rodrigo. Papo vai, papo vem, e ele me convida pra passar o ano com eles. Confesso que tentei escapar, numa tentativa frustrada de humildade, mas ele disse as palavras mágicas: “Se você não for, vou ficar chateado com você!” – nem preciso dizer que mudei meus planos na hora, né?

Assim, tive a madrugada mais incrível de todo o ano de 2019. Comida maravilhosa, amigos incríveis, muita alegria! Mas algo ainda mais incrível aconteceu naquele lugar. Aquele burburinho típico de festa começou a diminuir e dar lugar à uma única voz. As pessoas foram se aglomerando num canto do salão ao redor da tia deles, a Pra. Bete, que contava algo com muito entusiasmo.

Como eu não tinha ouvido a história do início, comecei a prestar atenção para saber do que se tratava, mas eu estava completamente perdido. E mais, eu olhava para as irmãs do Rodrigo e elas estavam simplesmente vislumbradas com aquela história. Elas se entreolhavam com olhos arregalados e sorriam encantadas! Eu olhava pra elas, ouvia a história, olhava de novo pra elas… gente… como assim!? O que tem de tão espetacular nessa história?

Foi quando em meio àquele jantar de Ano Novo eu tive o que chamam de epifania! Como se um véu fosse tirado daquela cena, eu finalmente vi o que elas estavam vendo. Não era o que a Pra. Bete falava, era COMO ela falava! Seu sorriso, seus gestos, sua risada, absolutamente tudo lembrava seu irmão, nosso querido Pr. Paulo Silas, pai do Rodrigo, que já dorme no Senhor.

Mas de todos aqueles trejeitos da pastora, tão típicos do Pr. Paulo, o que mais me lembrou nosso querido pastor foi o olhar perdido de vislumbre quanto à obra de Deus. Na história que a Pra. Bete contava, pessoas estavam sendo abençoadas através de uma pequena reunião que ela havia improvisado, e ela testemunhava a respeito disso com esse encantamento tão inspirador. Subitamente, me veio à memória o cântico de Moisés:

“Grandes e admiráveis são as tuas obras, ó Senhor Deus Todo-Poderoso; justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei dos séculos. Quem não te temerá, Senhor, e não glorificará o teu nome? Pois só tu és santo; por isso todas as nações virão e se prostrarão diante de ti, porque os teus juízos são manifestos.” – (Ap. 15.3,4)

Poder passar o ano com essa família que tanto amo e admiro foi incrível, mas nada se compara à alegria de poder testemunhar esse momento tão inspirador e tão saudoso, daquele a quem o Senhor confiou a fundação de nossa igreja, a ADAI. Que possamos viver esse ano com os olhos fixos em Jesus, vislumbrando pela fé o que Ele irá fazer e, mais que isso, tendo esse arrebatar de sentidos por Seus feitos que, realmente… são magníficos!

Feliz 2020!

No amor do Pai,

Roger

Pastoral, Reflexões

Culto ao arrepio

Uma amiga me escreveu: “Rogeeer, fui naquela igreja lá… meu, eles cantaram por 3 horas… de pé! Eu estava morta de cansada, tinha trabalhado o dia inteiro, não aguentei, dormi. Falei pro mozão: ‘Mô, me chama na hora da Palavra!’ Quando acordei, eles estavam cantando. Perguntei pro mô: ‘Perdi a Palavra???’, ele me respondeu meio sem graça: ‘Não, amor… não teve Palavra’. E, Roger, sabe o que mais me assustou? Eles ficam naquele estado de tipo… ‘super flutuação’, sabe? Odiei!”

O relato da minha amiga não me surpreende nem um pouco. Quando se trata de adoração, há um fenômeno (que eu tento entender há anos), em que as pessoas acreditam piamente que adoração é uma experiência pessoal, totalmente particular, e que ninguém pode ensinar a respeito do tema porque adoração não se ensina. Diante disso, toda e qualquer sensação experimentada num ajuntamento cristão é tida como adoração. Assim, coloca-se nesse balaio todo arrepio, todo vislumbre e toda coincidência óbvia da palavra profética do: “Você está passando por um problema, mas Deus vai te dar vitória!”

Mas o problema, ainda maior, não é confundir arrepio com presença santa de Deus, é fazer disso um vício. Sim! Porque à medida que eu condiciono o meu espírito a se desconectar da realidade da vida em meio a canções que me deixam em um estado hipnótico, num típico Om, ele simplesmente quer mais daquilo, afinal, tal qual droga barata, aquela sensação não é permanente, e ao apagar das luzes, ao som do último acorde, ela se vai.

O fato de nestes cultos não haver ministração da Palavra é simplesmente a confirmação de que o culto já tem seu cultuado: o arrepio. Palavra não arrepia. Palavra não desconecta da vida. Palavra não arrebata sentidos. Pelo contrário, Palavra te traz para o chão da vida. Palavra coloca seus sentidos no devido lugar e tira da sua frente todo o tipo de distração da realidade do hoje e do amanhã. Palavra arrebenta com o seu eu e nos convoca a um culto racional através da oferta voluntária da própria vida como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus.

E de coração partido faço um alerta à igreja: essa é a pior prisão à qual uma pessoa de bom coração, de boas intenções e sedenta por mais de Deus pode ser submetida. Porque ela tem a falsa sensação de ter prestado culto. Sai dali com seu mantra: “Ai, foi tão bom, né!?”, mas vive à base do transitório, do passageiro, do efêmero. E, iludida pelo espetáculo, não percebe que é prisioneira das sensações, fiel do arrepio e devota do vazio.

No amor do Pai,

Roger

Música, Pastoral, Reflexões

O papaizinho da hipergraça

Em tempos de hipergraça, chamar Jesus de papaizinho tornou-se algo corriqueiro em algumas canções ou ministrações da galera do Movimento Worship. Evidente que, diante do esfriar do amor e do distanciamento cada vez maior da humanidade em relação ao seu Criador, é muito melhor ter um cristão que precisa ser ensinado quanto à teologia bíblica, do que ter alguém completamente alheio à graça. Contudo, é nosso papel alertar a comunidade cristã quanto à essa elasticidade forçada da graça.

Nós sabemos que a palavra abbá (אב) – a sílaba tônica é a segunda no original – é usada até hoje em Israel, principalmente pelas crianças. Ela seria um balbuciar infantil tal qual o nosso “papá”. Oras, ao fazer uso de uma palavra que denota tanta intimidade com o Pai (numa relação com a divindade totalmente anacrônica para Sua época), Jesus abre caminho para que tenhamos esse mesmo acesso íntimo ao nosso Deus. Porém, chamar seu genitor de papai, denota no mínimo uma relação profunda, não apenas de amor e carinho, mas consequentemente de respeito e submissão.

O grande problema dessa geração modinha, é que chama-se Jesus de papaizinho num drama meloso que beira a sensualidade, com vozes infantilizadas e frases que mais parecem juras de amor entre adolescentes com seus hormônios explodindo. Oras, você pode até achar que é a minha mente que está maldando a poesia, mas eu te explico porque não vejo coerência nessa melação.

Quando Jesus realiza o milagre da grande pesca, Pedro reconhece que está diante do próprio Deus e exclama: “Senhor, afaste-se de mim!”. A reação de Pedro nos dá talvez uma noção do que pode ter passado por sua mente. Parece-me que ele se dá conta de que aquele homem, que há pouco estava dentro do seu barco, tão próximo, tão simples, tão humano, era Deus disfarçado de gente.

Veja, o problema não é chamar Deus de Tu, de Você, de Eterno ou de Papai, o problema é não temê-Lo. Nós sabemos que esse temor não é o medo aterrorizante diante do perigo, mas ele é sim o medo diante de uma glória e santidade que podem simplesmente nos consumir com Sua presença. Não fosse o Seu amor, nós seríamos, sim, consumidos. Perder essa noção é ignorar inocentemente o fato de que Ele é Deus e nós somos meros bonecos de barro que emprestamos seu fôlego de vida por um tempo.

Chame-o de Abbá, mas reverencie-O em toda Sua glória, não com caras e bocas, mas temendo-O de todo coração, e em santidade, mesmo depois que as luzes se apagam e a fumaça se esvai.

No amor do Pai,

Roger