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Reflexões, Versos & Prosa

Ela não é seu troféu!

Eu ainda lembro do aconselhamento com o meu querido Pr. Pompilho. Já velhinho, com voz rouca e desgastada, me disse com carinho: “Filho, ela vai engordar!” (rs)

Nós estamos vivendo a Geração Vitrine. Zilhões de selfies de gente malhada, com legendas copiadas de gente sedentária. Claro, nem toda gostosona é vazia, e nem toda desajeitada é inteligente. Porém, selfie não mostra conteúdo, selfie só mostra capa.

Acontece que muitos caras estão atrás exatamente disso. Aliás, esses caras sequer leem legendas. Pode colocar que a “batatinha espalha rama pelo chão” que vai dar na mesma – só não põe versículo, pega mal. Mas a legenda pouco importa, porque tudo o que eles querem é um troféu! Quando veem aquela pose sensual e aquele bico de pato, já se imaginam chegando na balada com aquela patinha linda! [Quac!]

Mano, me deixa te falar um negócio? Se você tem nojinho de estrias e tira barato da gordinha, com todo respeito, você é moleque! Cara, você quer romantizar o amor? Esse é o pleonasmo mais tosco que existe, porque paixão é fogo, mas amor é gelo. Depois que a paixão consome tudo aquilo que você viu na vitrine, só a frieza do amor é capaz de manter o sabor dos beijos.

Quando a Bíblia fala da mulher ideal, ela fala de uma empreendedora! Ela diz que a mulher virtuosa “avalia um campo e o compra, com o que ganha planta uma vinha.”. Cara, cê não ganha uma mulher dessa com esse papinho tosco de “você é muito gostosa!” (Aff!)

Meu consagrado, aprende uma coisa! O vento sopra toda beleza. Como brisa suave, dia a dia ele vai levando o make up. Sua irmã, a gravidade, aquela megera, vai cumprindo seu papel. O preto vai dando lugar ao cinza, e a sedução muda de tom. Agora, ela está apenas no doce sussurro do “Eu ainda te amo!”

O tempo vem, soldado! E com ele os boletos! A mulher virtuosa não é a que se cuida pra você, é a que se cuida pra ela. Com essa, você não tem dor de cabeça, porque ela não precisa de rasgação de seda, e nem é comprada com presentes – ela é muito bem resolvida! Tudo o que ela quer é amor verdadeiro, uma conversa agradável e honesta, e uma boa taça de vinho.

Bom, eu não bebo, mas falo que é uma beleza. Então, se cuida, soldado!

Reflexões, Versos & Prosa

O parafuso

Isso é um parafuso. Eu sei, eu sei… você não acredita, mas isso é um parafuso.

Eu respeito muito a sua opinião, de verdade! Entendo que você cresceu numa família muito pra frentex, com uma visão ampla de mundo e repleta de amor, muito amor. Mas isso é um parafuso.

Entendo que podemos discutir a etimologia, claro, podemos divagar sobre a origem da palavra, como “pare fusu”, “parahusoou até de “bohreisen”, mas independente de sua semântica, isso é um parafuso.

E convenhamos, achar que o parafuso vai se sentir ofendido porque ele, na verdade, se sente um prego, é ter um parafuso a menos, né? Oras, se você bater na cabeça dele por algum tempo, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, ele vai entrar, mas isso não vai torná-lo um prego! Goste você ou não, isso é um parafuso.

Veja, não é muito mais coerente rodá-lo ao invés de agredi-lo só pra tentar convencer o mundo de que você está certo? Oras, ele foi feito pra ser rodado – não é difícil de se perceber. Cada vez que você bate na cabeça dele, você está agredindo não apenas o parafuso, mas o seu criador. Porque quando ele o desenvolveu, ele tinha um propósito em mente, por isso, fez um projeto bem elaborado. E neste projeto diz que a única forma do parafuso cumprir a sua função é rodando, porque… isso é um parafuso.

Eu entendo que pode parecer chato, Claro, ficar rodando, rodando, rodando… deve ser enfadonho. Eu sei que o prego é mais ousado, arrojado, agressivo, mas ele é assim porque ele foi feito pra ser assim. E o fato de um ser agressivo e o outro ser mais passivo, não faz de nenhum deles melhor que o outro. Eles só são diferentes, porque… prego é prego, mas isso? Ah, isso é um parafuso.

E assim, eu não quero te convencer a nada. Aliás, eu acho que todo mundo é livre pra pensar o que quiser. Agora, você dizer que o manual do fabricante foi interpretado errado porque ele disse que todos esses materiais são para fixar coisas, e você entende que “tanto faz” e que, no fim das contas, o que importa é ficar tudo coladinho… olha, sinto lhe dizer, mas, cedo ou tarde, a inversão dos produtos vai fazer com que tudo se despedace! E não adianta culpar o fabricante! O manual é muito claro. Prego aqui, parafuso ali. E no manual diz que… bem… diz que isso é um parafuso.

Mas sem problema, quem sou eu pra lhe contrariar? Até porque, mesmo que você continue invertendo a lógica das coisas, só pra agradar os seus parafusos, e continue batendo cabeça e estragando muita madeira por aí, o parafuso vai continuar do mesmo jeito. Você pode, inclusive, chamá-los do que quiser, porque, goste você ou não…

Isso é um parafuso.

Reflexões, Versos & Prosa

Santinha e Dona Graça

Tarra sol. Dona Graça suarra em bicas. Exausta, sentou-se à beira do açude, que tarra mais seco que o bom dia de Seu Lunga.

– Arre égua… que sede – se lastima agoniada, Dona Graça.

De repente, a salvação! Lá vem Santinha, rebolando mais que quenga na pracinha, com um balde réio na cabeça, cheim d’água. A fogosa ia passano toda despeitada:

– Oxi, Dona Graça!? Tais fazendo o quê, aqui por essas banda?

– Ô, minha fia… tentei ataiar por um caminhozinho ali pela mata, e cabei aqui. Mas olhe… me dê água, me dê! – disse logo sem arrudeio, Dona Graça.

– Ah, Dona Graça… a senhora vai me desculpar, mas essa água aqui é pro Tonho. E a senhora sabe como é que é Tonho, se não fizer do jeitinho que ele diz, eu levo logo é uma pêia.

– Valha, Santinha! Que é que custa dividir um pouquinho d’água? Apois! Se tu soubesse com quem tarra falano, ia pedir água era pra mim, visse?

– Oxente! E a senhora tem lá de onde tirar água? Açude réi tá mais seco que sibito baleado!

– Pois eu faço é uma aposta contigo como eu tenho é mêimundo de água aqui comigo. – disse Dona Graça, convicta de sua resenha.

– Êita, que Dona Graça tá toda estrambólica hoje… – mangou Santinha já se indo embora. – Me dê esse mêimundo d’água que eu aproveito e já encho o açude que tá sequim – emendou Santinha com uma gargalhada.

– Chame lá seu “marido”, Santinha, que eu explico melhor pra ele. – gritou Dona Graça arremedando.

– Ô, Dona Graça, a senhora tá achando que eu sou suas pariceira da igreja, é? – voltou Santinha já toda ouriçada – A senhora tá cansada de saber que Tonho não é meu marido. Por que tá me azucrinano?

– Se aveche não, Santinha! Não tô falano dessa água aí, não, estrupício! Tô falano é da Água da Vida!

– “Água da vida!?” Que diabeisso, Dona Graça?

– Santinha, a Água da Vida é uma água que não cessa nunca, mulher! Cê bebe, bebe, bebe e bebe… e ela continua jorrando de dentro do seu bucho feito chuvarada!

– Êita, que Dona Graça bateu mesmo a cachulêta… Dona Graça, vá pra casa, vá… que a senhora tá é abilolada!

– Santinha, já ouviste falar de Gezui?

Finalmente, Santinha sentou-se e ouviu Dona Graça falar por horas sobre aquela tal água benta que jorrava sem parar. E ao pôr do sol, Santinha reconheceu que ela era sedenta daquela água, e desde então, nunca mais Santinha voltou pra buscar água. Dizem até que ela abriu seu próprio poço.

Como diria o poeta: “Num sei, só sei que foi assim…”