Pastoral, Reflexões

Só Deus pode mim julgá

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Gosto muito de escrever frases curtas de reflexão. Nossa geração não tem mais o hábito nem a paciência de ler textos que lhe custe mais que alguns segundos – somos imediatistas em praticamente tudo o que fazemos. Por isso, creio que Deus me deu essa estratégia para transmitir verdades de forma rápida e contundente.

Nesse exercício (quase uma terapia), sempre recebo com carinho os comentários de apoio dos amigos e irmãos que intercedem por meu ministério. Mas, recentemente, uma frase que sequer fazia parte dessas reflexões, acabou sendo um ponto fora da curva pela quantidade de curtidas e compartilhamentos. A frase chegou, inclusive, a ser motivo de comentário do querido Pr. Adhemar de Campos (uma referência para mim).

Numa brincadeira sarcástica quanto à campanha “O Brasil que eu quero” da Rede Globo, escrevi que

“O Brasil que quero para o futuro é um país onde foto sensual não venha com versículo.”

Curiosamente, uma amiga me lembrou que há 2 anos eu já havia escrito:

“Pode pôr versículo na fotinho, irmã, mas põe o resto da roupa primeiro!”

Evidente que a intenção da frase não é impor um falso moralismo, até porque, cada um posta o que quiser e não temos nada a ver com isso. A questão gira mesmo em torno da incoerência de misturar sedução com o que é sagrado. Mas essa é apenas a ponta do iceberg. Me parece que buscamos freneticamente legitimar nossos pecados com alguma brecha na lei. E é dessa tentativa bizarra que sai o: “Só Deus pode me julgar” ou o tão batido “Não julgueis para que não sejais julgados”

Em nossos momentos de fraqueza, tomamos [des]caminhos que nos levam ao caos, e ao invés de reconhecermos nosso erro e assumirmos as consequências, tentamos a todo custo legitimar a bagunça com ares de espiritualidade – sem contar as neuras e indiretas na rede a respeito de uma perseguição digna de complô internacional.

Assim, que sejamos mais honrosos ao assumir nossas culpas como fez o filho pródigo, e menos hipócritas como foi seu irmão, que servia ao pai não por amor, mas para que fosse reconhecido por sua dedicação.

Aceita um clichê? Deus é tão bom que permite plantarmos o que quisermos, mas é tão justo que nos faz colher exatamente o que plantamos.

No amor do Pai,

Roger

Esperança, Reflexões

Série “Caixa de Pássaros” – Depressão

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*CONTÉM spoilers

Por favor, não se aborreça comigo, mas se você achou Bird Box um lixo, talvez você precise ampliar seu leque cinéfilo para além de Os Vingadores. É claro que eu também prefiro a Sandra Bullock me fazendo chorar de rir ajoelhando-se numa proposta de casamento e ainda matando de inveja as lobas de plantão (sim, é uma mulher perfeita de 44 anos que esbarra nua em Ryan Reynolds e ele surta só porque ela é chata – sabe nada esse menino).

Mas, voltando a Bird Box, você encontrará na rede uma série de explicações, boas e ruins, sobre o filme da Netflix. E sabe por que? TALVEZ, exatamente pelo mesmo motivo que o próprio filme propõe: cada um vê nos monstros o seu próprio monstro. E digo “talvez” em letras garrafais porque nem mesmo o autor do livro explica todas as alusões. Por isso, eis minha visão particular dos meus próprios monstros.

Sim, está acontecendo! Você pode até ignorar “fingindo que é só na Rússia”, mas em algum momento poderá acontecer com alguém próximo a você, até mesmo da sua família. Aliás, que Deus te livre e guarde, pode acontecer até com você.

Não foram poucas as vezes que precisei ligar para minha mãe, em completo desespero, para que ela orasse por mim. Dia, noite, madrugada… Lembro de uma manhã, por volta de umas 5:00, em que havia passado a noite acordado, e liguei para ela em pânico! Sua oração foi me acalmando e literalmente adormeci como se tivesse tomado um calmante.

Lembro-me de ter parado o carro no acostamento de rodovias por algumas vezes, simplesmente porque as lágrimas me impediam de prosseguir. Travava batalhas espirituais gigantescas no banheiro do corredor do prédio onde trabalhava. Acredite você ou não, era como se eu estivesse lutando fisicamente com os demônios que me atormentavam. Eu tinha que lavar o suor do rosto ao sair dali, mesmo num ambiente com ar condicionado!

A depressão assume nuances assustadoras conforme sua história, na medida do seu trauma, mas é potencializada principalmente pelo seu histórico familiar. Pela graça de Deus, tive uma infância mergulhada na igreja e num ambiente estável, cheio de amor, carinho, cuidado e muita oração. Por isso, no meu caso, decidi buscar ajuda do Céu, no jejum e na oração. Eu jamais seria imprudente e insano em desaconselhar tratamento psicológico a qualquer um que trava esta batalha. Porém, no meu caso, entendi que essa base, espiritual e familiar, seria alicerce suficiente para encarar esse desafio da minha vida e do meu ministério.

Tal como no filme, ninguém vai te entender! As pessoas, mesmo as mais próximas, olham pra você como a cena em que a mulher salva Malorie logo no início. Você está indo em direção às chamas, movido apenas por um trauma, uma voz do passado, algo que só você enxerga. É interessante como, mesmo uma pessoa sem memória como eu, é capaz de reproduzir na mente, quase que audivelmente, frases e cenas que te traumatizaram.

Tentar explicar isso àqueles que te cercam é uma roleta russa! Há aqueles que tentam te motivar com tudo aquilo que têm de bom em seu coração. Outros, se sensibilizam e simplesmente te acolhem. Mas inevitavelmente você vai se deparar com aquela bala fatal – os que meneiam a cabeça e pensam: “Que frescura!”

Porém, de todos esses encontros e desencontros, uma coisa é certa, ao final do enredo, essas pessoas irão se afastar. E eis um pequeno conselho: tente não ficar magoado com aqueles que assim o fazem. Acredite, as pessoas não se afastam do depressivo ou daquele que passa por depressão por não amarem ou por não se importarem. A maioria delas simplesmente não sabe o que fazer! Não, não é maldade ou falta de amor! Mas apenas alguém que te ama incondicionalmente ou um profissional habilitado vai encarar esse desafio com você.

Eu poderia dizer ainda muito mais sobre meus monstros e minhas batalhas. Porém, por ora, deixo apenas um conselho baseado em Bird Box: feche os olhos para o mal!

Eu decidi que enquanto estivesse nesse processo de cura, fecharia olhos e ouvidos para tudo aquilo que me fazia mal. Chamei esses pequenos monstros de gatilhos. Eu identifiquei cada um deles, e deles me afastei. Até mesmo em minhas orações parei de citá-los. Eu sei que o meu Redentor me entende, e isso me basta!

Em algum momento, a vida nos traz decisões cruéis, como Malorie ao ter que escolher entre sacrificar Menino ou Menina. Outras vezes, como no meu caso, nem mesmo a opção de escolha nos é dada – escolhem por nós. Mas seja como for, esse é o rio com suas horríveis correntezas que temos que atravessar se queremos chegar num lugar em que finalmente seremos livres da caixa.

Assim, esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.

No amor do Pai,

Roger

PS: Se lembrar, ore por mim.

Esperança, Reflexões

O risco

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Fazia muito calor e eu estava com preguiça de montar a mesa só pra mim e pra minha filha. Então, peguei uma mesinha que tenho aqui e levei pra sacada. Nisso, enquanto atravessava a sala levando a tal da mesinha, esbarrei a perna de metal da dita na tela da TV. Pensa num ódio! Que burrice! Que falta de atenção!

Depois que a Bia foi embora, fui pensar no que ia fazer. A solução veio de uma técnica revolucionária descoberta nos anos 80 graças aos CDs riscados do Simply Red: pasta de dente! Então, munido da minha super Colgate Total 12®, passei naquela unhada do capeta. Na terceira aplicação, a TV já estava como nova! A Colgate podia, inclusive, trocar o rótulo e expandir seus negócios (rs).

Hoje, estava olhando para o lugar do risco e pensei: se tem uma coisa certa sobre a vida é que ela traz riscos! Eu sei, parece óbvio, mas tente se colocar no lugar de quem sofreu um risco na carne. O óbvio simplesmente evapora. A solução, na mente de quem foi cortado, é sempre dramática e desesperançosa: joga fora! Não serve mais. Quem vai querer isso com um risco tão profundo? Aliás, pode ter 41 polegadas de imagens belíssimas, aquela 1 polegada de risco sempre vai estar ali, evidente, gritante, em destaque.

Veja, eu jamais seria cruel ao ponto de olhar para a sua história e sugerir que ela pode ser consertada com um pouco de pasta e um algodãozinho, mas já que o futuro é incerto, ele nos dá, mesmo que em migalhas, a opção de sermos otimistas. Então, pense assim:

Pode ser que o risco não seja tão profundo. Quem sabe, ainda dê pra limpar com um pouco de vontade e determinação. Talvez ele esteja apenas na epiderme.

Sim, a vida traz riscos. Relacionamentos são arriscados. Mas quando estamos cientes disso, podemos calcular se valerá a pena. E mais, se você estiver disposto a limpar cada risquinho, todos verão uma bela imagem, cheia de cor e intensidade.

Eu só preciso te avisar: você sempre saberá onde foi aquele risco.

Com carinho,

Roger