Reflexões, Versos & Prosa

O parafuso

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Isso é um parafuso. Eu sei, eu sei… você não acredita, mas isso é um parafuso.

Eu respeito muito a sua opinião, de verdade! Entendo que você cresceu numa família muito pra frentex, com uma visão ampla de mundo e repleta de amor, muito amor. Mas isso é um parafuso.

Entendo que podemos discutir a etimologia, claro, podemos divagar sobre a origem da palavra, como “pare fusu”, “parahusoou até de “bohreisen”, mas independente de sua semântica, isso é um parafuso.

E convenhamos, achar que o parafuso vai se sentir ofendido porque ele, na verdade, se sente um prego, é ter um parafuso a menos, né? Oras, se você bater na cabeça dele por algum tempo, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, ele vai entrar, mas isso não vai torná-lo um prego! Goste você ou não, isso é um parafuso.

Veja, não é muito mais coerente rodá-lo ao invés de agredi-lo só pra tentar convencer o mundo de que você está certo? Oras, ele foi feito pra ser rodado – não é difícil de se perceber. Cada vez que você bate na cabeça dele, você está agredindo não apenas o parafuso, mas o seu criador. Porque quando ele o desenvolveu, ele tinha um propósito em mente, por isso, fez um projeto bem elaborado. E neste projeto diz que a única forma do parafuso cumprir a sua função é rodando, porque… isso é um parafuso.

Eu entendo que pode parecer chato, Claro, ficar rodando, rodando, rodando… deve ser enfadonho. Eu sei que o prego é mais ousado, arrojado, agressivo, mas ele é assim porque ele foi feito pra ser assim. E o fato de um ser agressivo e o outro ser mais passivo, não faz de nenhum deles melhor que o outro. Eles só são diferentes, porque… prego é prego, mas isso? Ah, isso é um parafuso.

E assim, eu não quero te convencer a nada. Aliás, eu acho que todo mundo é livre pra pensar o que quiser. Agora, você dizer que o manual do fabricante foi interpretado errado porque ele disse que todos esses materiais são para fixar coisas, e você entende que “tanto faz” e que, no fim das contas, o que importa é ficar tudo coladinho… olha, sinto lhe dizer, mas, cedo ou tarde, a inversão dos produtos vai fazer com que tudo se despedace! E não adianta culpar o fabricante! O manual é muito claro. Prego aqui, parafuso ali. E no manual diz que… bem… diz que isso é um parafuso.

Mas sem problema, quem sou eu pra lhe contrariar? Até porque, mesmo que você continue invertendo a lógica das coisas, só pra agradar os seus parafusos, e continue batendo cabeça e estragando muita madeira por aí, o parafuso vai continuar do mesmo jeito. Você pode, inclusive, chamá-los do que quiser, porque, goste você ou não…

Isso é um parafuso.

Música, Pastoral, Reflexões

O papaizinho da hipergraça

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Em tempos de hipergraça, chamar Jesus de papaizinho tornou-se algo corriqueiro em algumas canções ou ministrações da galera do Movimento Worship. Evidente que, diante do esfriar do amor e do distanciamento cada vez maior da humanidade em relação ao seu Criador, é muito melhor ter um cristão que precisa ser ensinado quanto à teologia bíblica, do que ter alguém completamente alheio à graça. Contudo, é nosso papel alertar a comunidade cristã quanto à essa elasticidade forçada da graça.

Nós sabemos que a palavra abbá (אב) – a sílaba tônica é a segunda no original – é usada até hoje em Israel, principalmente pelas crianças. Ela seria um balbuciar infantil tal qual o nosso “papá”. Oras, ao fazer uso de uma palavra que denota tanta intimidade com o Pai (numa relação com a divindade totalmente anacrônica para Sua época), Jesus abre caminho para que tenhamos esse mesmo acesso íntimo ao nosso Deus. Porém, chamar seu genitor de papai, denota no mínimo uma relação profunda, não apenas de amor e carinho, mas consequentemente de respeito e submissão.

O grande problema dessa geração modinha, é que chama-se Jesus de papaizinho num drama meloso que beira a sensualidade, com vozes infantilizadas e frases que mais parecem juras de amor entre adolescentes com seus hormônios explodindo. Oras, você pode até achar que é a minha mente que está maldando a poesia, mas eu te explico porque não vejo coerência nessa melação.

Quando Jesus realiza o milagre da grande pesca, Pedro reconhece que está diante do próprio Deus e exclama: “Senhor, afaste-se de mim!”. A reação de Pedro nos dá talvez uma noção do que pode ter passado por sua mente. Parece-me que ele se dá conta de que aquele homem, que há pouco estava dentro do seu barco, tão próximo, tão simples, tão humano, era Deus disfarçado de gente.

Veja, o problema não é chamar Deus de Tu, de Você, de Eterno ou de Papai, o problema é não temê-Lo. Nós sabemos que esse temor não é o medo aterrorizante diante do perigo, mas ele é sim o medo diante de uma glória e santidade que podem simplesmente nos consumir com Sua presença. Não fosse o Seu amor, nós seríamos, sim, consumidos. Perder essa noção é ignorar inocentemente o fato de que Ele é Deus e nós somos meros bonecos de barro que emprestamos seu fôlego de vida por um tempo.

Chame-o de Abbá, mas reverencie-O em toda Sua glória, não com caras e bocas, mas temendo-O de todo coração, e em santidade, mesmo depois que as luzes se apagam e a fumaça se esvai.

No amor do Pai,

Roger

Reflexões, Versos & Prosa

Santinha e Dona Graça

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Tarra sol. Dona Graça suarra em bicas. Exausta, sentou-se à beira do açude, que tarra mais seco que o bom dia de Seu Lunga.

– Arre égua… que sede – se lastima agoniada, Dona Graça.

De repente, a salvação! Lá vem Santinha, rebolando mais que quenga na pracinha, com um balde réio na cabeça, cheim d’água. A fogosa ia passano toda despeitada:

– Oxi, Dona Graça!? Tais fazendo o quê, aqui por essas banda?

– Ô, minha fia… tentei ataiar por um caminhozinho ali pela mata, e cabei aqui. Mas olhe… me dê água, me dê! – disse logo sem arrudeio, Dona Graça.

– Ah, Dona Graça… a senhora vai me desculpar, mas essa água aqui é pro Tonho. E a senhora sabe como é que é Tonho, se não fizer do jeitinho que ele diz, eu levo logo é uma pêia.

– Valha, Santinha! Que é que custa dividir um pouquinho d’água? Apois! Se tu soubesse com quem tarra falano, ia pedir água era pra mim, visse?

– Oxente! E a senhora tem lá de onde tirar água? Açude réi tá mais seco que sibito baleado!

– Pois eu faço é uma aposta contigo como eu tenho é mêimundo de água aqui comigo. – disse Dona Graça, convicta de sua resenha.

– Êita, que Dona Graça tá toda estrambólica hoje… – mangou Santinha já se indo embora. – Me dê esse mêimundo d’água que eu aproveito e já encho o açude que tá sequim – emendou Santinha com uma gargalhada.

– Chame lá seu “marido”, Santinha, que eu explico melhor pra ele. – gritou Dona Graça arremedando.

– Ô, Dona Graça, a senhora tá achando que eu sou suas pariceira da igreja, é? – voltou Santinha já toda ouriçada – A senhora tá cansada de saber que Tonho não é meu marido. Por que tá me azucrinano?

– Se aveche não, Santinha! Não tô falano dessa água aí, não, estrupício! Tô falano é da Água da Vida!

– “Água da vida!?” Que diabeisso, Dona Graça?

– Santinha, a Água da Vida é uma água que não cessa nunca, mulher! Cê bebe, bebe, bebe e bebe… e ela continua jorrando de dentro do seu bucho feito chuvarada!

– Êita, que Dona Graça bateu mesmo a cachulêta… Dona Graça, vá pra casa, vá… que a senhora tá é abilolada!

– Santinha, já ouviste falar de Gezui?

Finalmente, Santinha sentou-se e ouviu Dona Graça falar por horas sobre aquela tal água benta que jorrava sem parar. E ao pôr do sol, Santinha reconheceu que ela era sedenta daquela água, e desde então, nunca mais Santinha voltou pra buscar água. Dizem até que ela abriu seu próprio poço.

Como diria o poeta: “Num sei, só sei que foi assim…”