Pastoral, Reflexões

Culto ao arrepio

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Uma amiga me escreveu: “Rogeeer, fui naquela igreja lá… meu, eles cantaram por 3 horas… de pé! Eu estava morta de cansada, tinha trabalhado o dia inteiro, não aguentei, dormi. Falei pro mozão: ‘Mô, me chama na hora da Palavra!’ Quando acordei, eles estavam cantando. Perguntei pro mô: ‘Perdi a Palavra???’, ele me respondeu meio sem graça: ‘Não, amor… não teve Palavra’. E, Roger, sabe o que mais me assustou? Eles ficam naquele estado de tipo… ‘super flutuação’, sabe? Odiei!”

O relato da minha amiga não me surpreende nem um pouco. Quando se trata de adoração, há um fenômeno (que eu tento entender há anos), em que as pessoas acreditam piamente que adoração é uma experiência pessoal, totalmente particular, e que ninguém pode ensinar a respeito do tema porque adoração não se ensina. Diante disso, toda e qualquer sensação experimentada num ajuntamento cristão é tida como adoração. Assim, coloca-se nesse balaio todo arrepio, todo vislumbre e toda coincidência óbvia da palavra profética do: “Você está passando por um problema, mas Deus vai te dar vitória!”

Mas o problema, ainda maior, não é confundir arrepio com presença santa de Deus, é fazer disso um vício. Sim! Porque à medida que eu condiciono o meu espírito a se desconectar da realidade da vida em meio a canções que me deixam em um estado hipnótico, num típico Om, ele simplesmente quer mais daquilo, afinal, tal qual droga barata, aquela sensação não é permanente, e ao apagar das luzes, ao som do último acorde, ela se vai.

O fato de nestes cultos não haver ministração da Palavra é simplesmente a confirmação de que o culto já tem seu cultuado: o arrepio. Palavra não arrepia. Palavra não desconecta da vida. Palavra não arrebata sentidos. Pelo contrário, Palavra te traz para o chão da vida. Palavra coloca seus sentidos no devido lugar e tira da sua frente todo o tipo de distração da realidade do hoje e do amanhã. Palavra arrebenta com o seu eu e nos convoca a um culto racional através da oferta voluntária da própria vida como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus.

E de coração partido faço um alerta à igreja: essa é a pior prisão à qual uma pessoa de bom coração, de boas intenções e sedenta por mais de Deus pode ser submetida. Porque ela tem a falsa sensação de ter prestado culto. Sai dali com seu mantra: “Ai, foi tão bom, né!?”, mas vive à base do transitório, do passageiro, do efêmero. E, iludida pelo espetáculo, não percebe que é prisioneira das sensações, fiel do arrepio e devota do vazio.

No amor do Pai,

Roger

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