Pastoral, Reflexões

Um altar ao deus dogma

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Cresci em igreja tradicional. Lembro-me de uma noite em que, enquanto brincávamos de esconde-esconde durante o ensaio do coral, havia uma reunião pesada na sala pastoral – uma jovem era duramente inquirida sobre ter cortado seu cabelo. Depois de correr pro pix e estar a salvo, me debruçava sorrateiramente por uma pequena janela no alto daquela sala que dava para os fundos da igreja. Dava pra ouvir o choro e os questionamentos da moça.

Também era comum um pequeno rito para receber de volta à comunhão aquele irmão que havia adulterado. Aliás, não era difícil saber quem tinha pecado, já que por um ano a pessoa era proibida de participar da ceia. Ao término do castigo, ela ia à frente da igreja para saber se os irmãos a aceitavam de volta. Ah, e se a queda tivesse sido com alguém da própria igreja, iam os dois à frente.

Era comum ouvirmos histórias de gente que saiu da igreja durante esse período de exclusão. Afinal, as exclusões aconteciam por motivos bem questionáveis. Quase tudo era motivo, desde jogar bola, ter TV em casa, ir ao cinema, à praia, usar barba, brincos, batom… Os nossos pais na fé eram de fato bem zelosos no que diz respeito a usos e costumes. Neste zelo, expunham as pessoas à disciplina, crentes que estavam seguindo o exemplo de Paulo, quando expôs a Pedro na frente de todos.

É preciso lembrar que a maioria das igrejas tradicionais dos bairros era pastoreada por homens muito simples, que construíam a igreja literalmente, dividindo sua Bíblia com a colher de pedreiro. A despeito de sua ignorância, esses homens seguiam as regras à risca com muito temor diante de Deus. Poucos deles tiveram a oportunidade de estudar e saber, por exemplo, que Paulo repreendeu a Pedro por este anular a graça de Cristo em suas atitudes, tornando a Sua morte inútil aos olhos de todos, não por ter usado uma túnica dois dedos acima dos joelhos – essa era a regra para disciplinar as mulheres na minha igreja (rs).

O tempo passou… a igreja superou praticamente todos os problemas quanto a usos e costumes. Porém, nem todos ficaram satisfeitos com essa evolução. Há um grupo de pessoas que não gostou nada desse afrouxamento da lei: os que conseguiam seguir fielmente todos aqueles preceitos. Afinal, as mulheres que podiam exibir um cabelo que jamais havia visto uma tesoura na vida eram muito bem vistas – isso é que era ostentação! E agora? Como mostrar publicamente a minha santidade, se todos os nossos santos dogmas foram jogados na lata do lixo?

Na verdade, o apóstolo Paulo já havia encerrado essa questão ao dizer que “essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne.” (Cl. 2.23). O problema é que quando você tira a religiosidade dogmática de quem tem sua fé alicerçada nesses preceitos, você tira-lhe o chão!

Troque a cor das paredes de sua igreja, e você perderá metade dos fiéis. Diga-lhes que não será mais necessário usar gravata nas reuniões, e você perderá a outra metade. Permita que a prostituta frequente os cultos porque ela lhe disse que ama ouvir os louvores, e o coral perderá muitos de seus componentes. Batize um jogador de futebol ou um funkeiro e você verá metade da comunidade evangélica se voltar contra você porque eles querem PRIMEIRO ver frutos de um arrependimento genuíno para, só então, permitir que aquele depravado se junte à NOSSA fé.

Há um altar erguido ao deus dogma bem no meio da porta central da igreja. Ao seu redor, estão milhares de devotos, curvados a regras e costumes que lhes dão garantia de salvação. Eles se amontoam em seu ódio e ojeriza por aqueles que se lhes opõem, impedindo que qualquer pecador entre. Tente lhes informar que Cristo morreu para nos libertar de todo jugo, e eles gritarão com você em letras maiúsculas: “VOCÊ NÃO FAZ POR MERECER!”

Triste saber que não basta evangelizar o mundo, é preciso primeiro evangelizar nossos irmãos.

No amor do Pai,

Roger

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