Pastoral, Reflexões

Parábolas da ansiedade

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Algumas vezes, Jesus falava por parábolas para facilitar a compreensão de alguns princípios, outras vezes, o fazia para restringir a compreensão apenas aos escolhidos. Esta geração não lê. Os comentários bíblicos, estudos e artigos tornaram-se as parábolas de nosso tempo, facilitam a compreensão, mas são verdadeiras mensagens criptografadas para essa geração, não é à toa que ela escreve tão mal e morre de ansiedade.

Porém, seguindo o bom e velho conceito de oferta e demanda, essa ansiedade precisa ser saciada em 15 segundos de uma “storie” ou, no máximo, em um videozinho rápido que mastigue bem a mensagem. Quem vai perder 30 ou 40 minutos num vídeo de pregação genuinamente bíblica, por exemplo? Na verdade, se você está lendo esse texto até aqui, você é privilegiado, sim!

Mas a maior ansiedade entre os crentes, sem dúvida, é a tal da questão da honra. Em Seu célebre Sermão da Montanha, Jesus nos disse para nos alegrarmos quando fôssemos humilhados por Sua causa. Mas não só isso, nos garantiu que, por conta disso, teríamos uma recompensa no Céu. Parece-me que essa não tem sido a filosofia de vida de muitos cristãos. Não apenas não admitem serem humilhados, como esperam receber honra aqui. E o pior, na maioria esmagadora dos casos, a tal humilhação é por conta de brigas ridículas dentro da igreja por opiniões diferentes ou simplesmente por consequência de seus próprios pecados, afinal, “de que se queixa o homem”? (Lm. 3.39)

É em meio a esse cenário de ansiedade e busca por honrarias nesta vida que proliferam as pregações e canções “afaga ego”. Mensagens que partem de princípios bíblicos, mas sutilmente são infestadas de gatilhos mentais que apenas alimentam (e saciam) o desejo pecaminoso de se ver recompensado na frente de seus inimigos. Inimigos esses, muitas vezes, filhos do mesmo Pai e membros da mesma igreja local.

A sutileza desse evangelho humanista diz que Deus honra os Seus aqui para que Ele seja glorificado. Já o evangelho genuíno diz que Ele é glorificado quando damos muitos frutos! (Jo. 15.8)

O evangelho antropocêntrico ainda utiliza textos da antiga aliança para justificar seu anseio pela honra. Alegam que Deus disse que “honraria aos que lhe honrassem” (1 Sm. 2.3). Insensatos! Se esquecem de que a continuação do versículo, “…os que me desprezam serão desprezados”, foi rescrita na cruz, pela Palavra do Bom Pastor que busca a ovelha desgarrada, que através da Sua imaculada igreja insiste com o mais terrível dos pecadores e que arremata cabalmente ao nos garantir que “se somos infiéis, ele permanece fiel” (2 Tm. 2.13). Glória a Deus!

Na nova aliança, segundo a tradição, Pedro teria rejeitado a honra de ser crucificado como o seu Senhor, e insiste que o crucifiquem de cabeça para baixo! O mesmo Pedro e alguns apóstolos, talvez com as costas ainda sangrando dos açoites, “saíram do Sinédrio, alegres por terem sido considerados dignos de serem humilhados por causa do Nome.” (At. 5:41). Me faltaria tempo para citar todas as vezes que esses homens que andaram com Jesus ressignificaram a palavra “honra”, mas Pedro… ah, esse realmente mudou o sentido de “honra”, dizendo “…alegrem-se à medida que participam dos sofrimentos de Cristo, para que também, QUANDO a sua glória for revelada, vocês exultem com grande alegria.” (1 Pe. 4:13).

Acorda, igreja! Não aceite essa anestesia dominical que tenta compensar as dores do caminhar com uma promessa de honra nesta vida que o Senhor Jesus jamais aprovaria. Nossa maior honra foi sermos vivificados quando estávamos ainda mortos em nossas ofensas e pecados. Deus não é glorificado quando somos honrados em detrimento de outros, por sua humilhação. Deus é glorificado quando refletimos o Seu caráter, Sua mansidão e Seu amor.

Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas. Glória, pois, a Ele eternamente. Amém! (Rm. 11.36)

No amor do Pai,

Roger

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