Pastoral, Reflexões

A fé e seus cercadinhos

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“Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que, como se ainda pertencessem a ele, vocês se submetem a regras: “Não manuseie!”, “Não prove!”, “Não toque!”? Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos. Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne.” – Cl. 2.20-23

A religiosidade brasileira sempre foi amante das regras. É fato histórico que a maioria das denominações evangélicas do Brasil nasceram de uma mistura de regras e princípios morais. Era comum receber, mesmo que indiretamente (ou não), a cartilha da denominação com suas centenas de leis de comportamento e disciplinas. “Não pode!” – assim começavam os parágrafos da cartilha. “Não beba”, “Não corte o cabelo”, “Não use calças compridas”, “Não use barba”, “Não pinte as unhas”, “Não assista TV”, “Não jogue futebol”, “Não raspe as pernas”, “Não beba Coca-Cola”, “Não depile as axilas” (eca!), não… não… e não…

diferente

Mas até aí, nada de novo. Afinal, muitas denominações ainda seguem esse conjunto de usos e costumes à risca. Entendo até que muitos cristãos não tenham preparo para viver a liberdade que temos em Cristo Jesus, mas isso é assunto para outro post. O que percebo de perturbador nessa forma de viver não são apenas o jugo e a opressão dos crentes que obedecem a essas regras, mas a falsa sensação de estarem, dessa forma, cumprindo realmente os mandamentos de Cristo.

Certa vez um jovem rico e importante na sociedade da época procurou Jesus com a mesma intenção – cercar os mandamentos divinos num quadrado bem limitado que, certamente dariam a ele a segurança e o conforto de ser aceito por Deus. Perguntou o moço: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (Lucas 18.18-29). Jesus, que nunca se impressionou com retórica ou status social, logo entendeu que o jovem o chamara de bom num sentido jocoso, dúbio… pelo que respondeu: “Por que você me chama de bom? Não há ninguém que seja bom, a não ser somente Deus. Você conhece os mandamentos: ‘Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe'” Parece que posso ver, nesse momento, o coração do jovem se enchendo de alegria. Ele sabia a regra de cor e salteado. Como bom judeu, provavelmente havia crescido ouvindo e decorando a Torá. Seus limites e fronteiras eram bem determinados, por isso estava seguro de sua salvação. Provavelmente orgulhoso de seu comportamento exemplar, o jovem rico se gabou: “A tudo isso tenho obedecido desde a adolescência”. Então Jesus, como num passe de mágica, desmonta o jovem e toda sua lógica humana dizendo: “Falta-lhe ainda uma coisa. Venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro nos céus. Depois venha e siga-me.” A Bíblia diz que aquele jovem retirou-se entristecido porque era muito rico. Lendo as entrelinhas, percebemos que Jesus não está falando-nos de ganância ou de ostentação, mas de prioridades.

Não adianta querer listar os 10 mandamentos de Jesus. Isso é retroceder. Os judeus já haviam feito isso. Não contente com os 10 mandamentos, a Lei Mosaica ainda acrescentou 613 leis, e tudo isso serviu apenas para mostrar o quão distantes nós estaríamos de Deus, não fosse sua maravilhosa graça.

Jesus está chamando-nos a dar um passo a mais.
A rasgar a lei e mergulhar em seu espírito.
A não decorar regras, mas viver seus princípios.
Jesus está nos chamando a transcender…
a ler as sagradas entrelinhas.

Quer viver a nova vida em Cristo? Siga o Mestre, durante a caminhada você irá tornar-se mais parecido com Ele a cada passo. Quer ser verdadeiramente um cidadão do Reino? Então não tente restringir ou limitar o espírito de Jesus a um conjuntinho de leis e regras morais, mas busque ao Senhor para ter a mente de Cristo. Só assim poderemos pensar como Ele, andar como Ele, agir como Ele e principalmente, amar como Ele! Vivamos a liberdade de Cristo!

No amor daquele que nos libertou,

Roger

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