Incoerência, Reflexões

Em defesa da Globo

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É impressionante como as redes sociais trazem à tona nossas velhas mazelas da igreja. Lembram como num passado não tão remoto excluíamos sem dó aqueles que eram pegos em adultério ou transando (a palavra técnica era “fornicando”) antes do casamento? Muitas igrejas não tinham sequer a sabedoria de poupar a destruição de uma ou duas famílias ao expor o pecado publicamente no dia da Ceia do Senhor com os réus ali na frente. Só faltava mesmo Jesus escrevendo na areia. Evidente que esta é uma generalização. Muitas igrejas estavam à frente de seu tempo e já entendiam que o amor, o perdão, o aconselhamento e o acompanhamento pastoral eram as ferramentas de Deus para lidar com tais situações. Mas o mais curioso é que a pena era quase capital apenas para os pecados de natureza sexual. Dificilmente excluía-se por fofoca, roubo, calúnia, trambicagem. Nego sentava a mão na mulher em casa e dava glória no culto como se a vida cristã fosse restrita ao ambiente eclesial. O tempo passou e evoluímos… Será?

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Hoje, minha timeline amanheceu repleta do mesmo compartilhamento: duas distintas senhorinhas se beijando voluptuosamente. As legendas iam desde “pouca vergonha” até “é o fim dos tempos”. Deduzi que fosse da novela pelo logotipo da Globo e por conta das atrizes, evidentemente. E os crentes falavam com tanta propriedade da cena, que confesso ter me sentido meio excluído por não ter assistido rs. E mais uma vez me senti incomodado com a falta de coerência dos meus irmãos. Parecia estar vivendo novamente a década de 80 e seus tribunais eclesiásticos em que a sexualidade era sempre o alvo da disciplina.

Sinceramente? Me sinto meio perdido ao falar de algo que “atualmente” (sem hipocrisias, né?) não acompanho, mas vou generalizar. Eu não me lembro de nenhum banner gospel condenando as sagas em que a amante matou a esposa do cara pra ficar com ele. Também não lembro de ninguém compartilhando algum versículo que pregue o perdão ou sugira dar a outra face à vilã de qualquer teledramaturgia. Aliás, me parece que quando a Paolla Oliveira mostrou a “retaguarda”, as irmãzinhas fizeram foi compartilhar a cena num misto de revolta e inveja gospel de passar a perna em Valesca Popozuda.

Realmente, seria muita hipocrisia minha dizer que nunca assisti uma novela. É verdade que foi apenas uma enquanto estava desempregado, mas assisti “O Cravo e a Rosa” no “Vale a pena pecar de novo” rs. Mas a questão aqui não é a novela ou seu conteúdo em si – o controle remoto é seu e você assiste o que a sua consciência lhe permitir. A questão é a indignação dos crentes com um canal de TV secular transmitindo uma programação cujo propósito explícito é incutir na mente de seus telespectadores o estilo de vida contemporâneo e mundano. Criticar a Globo por mostrar o beijo das “meninas” é o mesmo que criticar sua igreja por pregar a volta de Jesus. Tá tudo certo. Ambas estão divulgando o Reino a que pertencem.

Me perdoe a sinceridade, mas o que você esperava ver? Uma cena com a sua cantora favorita cantando que a vitória da vilã ia ter sabor de mel? Um momento de reconciliação em que a protagonista cai em si e decide pedir perdão por seus pecados? Ou você queria mesmo era dar glória porque estava orando para que aquele casal ficasse junto no final da trama?

Encerro deixando as palavras de Jesus para sua reflexão neste dia: “…vocês coam um mosquito e engolem um camelo” – Mt. 23.24

No amor de Cristo,

Roger

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