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Oração, Reflexões

A insanidade nossa de cada prece

Josué estava exausto. Havia caminhado a madrugada inteira para atender um pedido de socorro. Passara o dia inteiro guerreando e, mesmo depois daquela chuva de granizo que acabou com parte do exército inimigo, a batalha persistia. E mais, a noite se aproximava e a escuridão dificultaria ainda mais a peleja. Então, no meio da batalha, talvez numa mistura de cansaço e desespero, Josué comete uma insanidade. Provavelmente, num êxtase de sentidos, olha para os céus e grita: “Sol, não se mexa! Lua, fique onde está!” – e não é que os astros pararam em suas órbitas e eixos? E escreveu-se no Livro de Jasar que “o sol parou no meio do céu e por quase um dia inteiro não se pôs”…

postrado

Pois é… os intervalos na faculdade sempre são marcados pelas discussões teológicas. O cafezinho sempre regará o embate de estudantes ansiosos na explicação dos mistérios da fé. É engraçado ver os “bixos” aspirantes a pregador sendo confrontados em suas mensagens de autoajuda com todo seu evangeliquês. Me impressionam também os inimigos da cruz que estudam para provar que a fé aprisiona. Entre uma tragada e outra, eles também brigam por suas convicções. Mas a verdade é que tudo isso vai imprimindo em nós, pseudoteólogos, uma ansiedade louca em explicar a fé. Imagino um reles apolegeta como eu nas arquibancadas da batalha em Gibeom: “Olha só, o Josué… fez uma oração toda incoerente. É claro que ela não vai ser ouvida. O sol não pode parar porque quem gira é a Terra. Pobre Josué…”

Pobre de mim em acreditar que o Espírito Santo não interpreta nossas orações toscas. “Senhor, por que você não está me ouvindo?”; “Jesus, por que você me esqueceu?”; “Deus, se você fizer o que estou pedindo, então, vou te servir…”. Todas essas orações podem facilmente ser denunciadas pela teologia como heréticas. Mas a beleza do Eterno é que Ele não cabe em Si. Não pode ser contido nem mesmo por sua exatidão. Como disse o poeta: “Por ser exato, o amor não cabe em si. Por ser encantado, o amor revela-se. Por ser amor, invade e fim.”

Escrevi tudo isso simplesmente para fortalecer a sua fé e te dizer: não se deixe tropeçar pelas belas palavras de oração. Não se encante com as orações cerimoniais. Não acredite nem por um segundo que o clamor ao “Magnânimo e Inescrutável” é mais poderoso do que o seu “Paizinho do Céu”. Mesmo quando minha bebê me bate e me arranha, eu sei que esta é sua melhor declaração de amor.

Não deixe de pedir. Não pare de acreditar. Mesmo que no auge do seu cansaço você já esteja pedindo algo absurdo, sem sentido, impossível. Me parece que esse é o melhor campo de batalha. Creia, do Céu virá o socorro.

No amor de Cristo,

Roger
“Nunca antes nem depois houve um dia como aquele, quando o Senhor atendeu a um homem…” – Josué 10.14

Oração, Reflexões

Orar pra quê?

Quem frequenta alguma igreja histórica deve conhecer aquele tipo de diácono que é o “dono das chaves”. Cresci vendo essa figura na minha primeira igreja. Era um camarada baixinho, bigodudo e marrento que andava com um molho de chaves tão grande que fazia-o andar meio torto. Nem preciso dizer que para conseguir abrir qualquer porta na igreja era preciso autorização do papa, né? Ser o dono das chaves, para ele, era como ser o dono da igreja. Hoje, consigo entendê-lo e perdoá-lo, talvez essa fosse a única atividade em que ele se sentia realmente dono de alguma coisa. A ignorância, às vezes, é uma bênção. Acontece que cada vez que ouço a expressão “a oração é a chave que abre todas as portas” lembro desse camarada. Lembro, porque as pessoas que usam desse jargão geralmente se parecem muito com ele. Falam conosco, os “deschaveados”, como se soubessem exatamente como abrir as portas dos Céus. Em seus discursos vazios, nos ensinam os 7 passos para alcançar a bênção, ou os 3 segredos da oração respondida. É como se a oração fosse algo realmente secreto que apenas uns poucos felizardos soubessem como “usá-la”.

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Um dia, em meio a uma de suas aulas, meu professor de Escola Dominical se abriu conosco: “Amo ler a Palavra, mas tenho que confessar: tenho dificuldade para orar”. Lembro que ainda atordoado com aquela confissão, comentei com um amigo: “Você viu? Ele não ora”. Meu amigo sabiamente respondeu: “É… a diferença entre ele e nós é que ele admitiu”.

Quem “usa” a oração como chave, também usa a fé como lhe convém. O evangelho pragmático é mesmo uma praga. Me arrepio só de pensar em me ajoelhar para tentar arrancar alguma coisa de Deus através da oração. Orar é falar com Deus. Simples assim.

Quando Jesus nos ensinou a orar, é evidente que não nos deu um mantra. Deixou bem claro que apenas três coisas são nossas: o Pai, o pão e as ofensas – a vontade… é mesmo dEle. Pensar num segredo de oração que nos faz “conquistar”, me parece fruto daquilo que Tiago chamou de “paixão que guerreia dentro de nós” – “Quando pedem, não recebem, pois pedem por motivos errados, para gastar em seus prazeres.” (Tg. 4.3). Então, como orar? Quer saber o verdadeiro segredo? Vou te contar, mas vê se conta pra quem você puder: o segredo é que não há segredo. Não há o que você não possa dizer em oração. Não existe o jeito certo de orar. Não existe a hora certa de orar (a fila não é menor de madrugada, tá?). Não existem as palavras certas que tocam o coração do Pai. Certo mesmo é que quando você se ajoelha, cai direto na Sala do Trono.

Ali, você é ouvido quando fala.
Ali, sua lágrima é uma história.
Ali, sua revolta é filtrada e compreendida.
Ali, o abraço é certo. O consolo, imediato.
Ali, ninguém liga para os seus erros de português.
Ali, ninguém se impressiona com retórica.
Ali, ninguém consegue chamar mais a atenção do Pai.
Ali, ninguém consegue desviar-se de Sua atenção.
E quando sai dali, você sempre sai em paz.
(Se é que você sai…)

Enfim, só há uma oração errada: a que não foi feita.

Ore. Não sei se você será atendido. Mas quem lembra disso quando está conversando com o Pai?

No amor do Papai,

Roger