Música, Reflexões

Jesus é “você”?

image_pdf

Deus tem me dado o privilégio de ter em meus seminários e palestras, pessoas de todas as idades. No último seminário que fiz, inclusive, fiquei honrado demais por ter conosco uma querida irmã de quase 70 anos – meu pastor fez questão de me mandar mensagem no momento em que viu a foto da formatura, dizendo que isso não tinha preço! E, de fato, que honra!

Então, foi nessa mesma palestra que surgiu a tal pergunta. Eu falava sobre os conflitos entre as gerações X e Y, e suas implicações na musicalidade cristã, quando uma moça de 20 anos perguntou se podia chamar Jesus de “você”, e olhou pra mãe… Quase que imediatamente houve um alvoroço no seminário (rs). Mãe e filha começaram a rir, mas também a justificar seus posicionamentos sobre respeito, costumes e reverência. A mãe, evidentemente, falava sobre o respeito que tinha com seus pais e que tinha que chamá-los de “senhor” e ”senhora”. A filha, porém, justificava dizendo que nunca chamou a mãe de “senhora” simplesmente por não ser um costume de sua geração, mas que mesmo assim a respeitava profundamente.

A verdade é que, só essa semana eu recebi mais de 10 mensagens perguntando o que eu achava dessa questão. Bom, você já deve saber que existem 2 times aí, o #TimeVoce e o #TimeTu. Mas para que possamos ser edificados e conviver pacificamente em nossas comunidades de fé, lhe aconselho a não colocar a camisa do seu time antes de chegar ao final deste artigo. Tente ser o mais neutro possível, ok?

Uma boa comunicação

Antes de tudo, preciso salientar o quanto a boa comunicação é imprescindível na proclamação do evangelho. Se você me segue há algum tempo, deve saber o quanto eu sou cuidadoso com o português. Porém, muitas vezes, propositadamente, eu “como” alguns plurais simplesmente para me aproximar mais do meu público alvo (paulistas em sua maioria, cuja não pluralização é comum por aqui rs). O que quero dizer é que é imprescindível alinhar o discurso para que o anúncio do evangelho não seja prejudicado. Quando falo a adolescentes, não economizo no “mano” ou nas “treta” com o irmão, mas eu jamais falaria assim no congresso das irmãs belemitas. Por que? Respeito! O mesmo motivo pelo qual uso gravata em algumas ministrações. Odeio, mas respeito.

A questão de chamar Jesus de “você” tem tudo a ver com o que a menina falou em meu seminário – ela simplesmente cresceu sem jamais ouvir seus amigos chamando os pais de “senhor” e “senhora”. Mas e a Bíblia? Ela diz algo sobre isso?

A língua portuguesa

Bom, antes de falar da Bíblia, é preciso falar da língua portuguesa. Sabe-se que em Portugal, chamar o outro de “tu” é a forma mais comum e informal há muito tempo. Lembre-se que quem traduziu a nossa primeira versão da Bíblia foi João Ferreira de Almeida, um português! Portanto, o “tu” não é exatamente uma questão de respeito ou formalidade nos textos sagrados brasileiros, mas uma questão linguística. Era simplesmente o jeito que se falava comumente (e se fala até hoje) em Portugal ao se referir ao outro.

Bom, e o tal do “você”? Faça uma rápida pesquisa no Google e você verá que “você” veio de “vossa mercê” – que era o elevado tratamento dado na terceira pessoa aos reis de Portugal, portanto, era tratamento altamente respeitoso. Já o “tu” era usado entre o povão mesmo e na intimidade, de pai para filho, com os criados etc. Ou seja, os dois tratamentos têm em sua origem exatamente o sentido contrário ao que entendemos hoje como um tratamento respeitoso.

Grego e Hebraico

E a Bíblia? Bom, do pouquíssimo que estudei sobre grego e hebraico (línguas originais da Bíblia), não há distinção entre esses pronomes, mas esse é um estudo que requer mais profundidade, e não tenho competência para tal. Porém, há estudiosos que dizem, por exemplo, que o “su” (pronome pessoal da segunda pessoa do singular, em grego) é usado tanto por Pedro quanto por Jesus ao se referirem um ao outro em João 21. Assim, a distinção que a NVI, por exemplo, faz entre “tu” e “você”, simplesmente não existe no original.

Jesus e Pedro utilizam o mesmo pronome pessoal no grego para se referirem um ao outro (Jo. 12.15,18)

A geração Z

Bom, além de tudo que colocamos até aqui, temos ainda a questão da Geração Z, que por ser altamente globalizada é vidrada em versões. E sabemos que o americano usa “you” indistintamente já há muito tempo. O que melodicamente foi ótimo para a minha geração, a gente sempre traduziu “You are” como “Tu és” – métrica e significados perfeitos!

Evidentemente, esse é apenas um artigo num oceano de argumentações que ainda incluem o fato de o próprio Deus ter “dificuldade” em nos informar Seu nome. “Dificuldade” esta pela óbvia distância da qual nós, meros mortais, estamos da dimensão do Eterno, que tenta simplificar dizendo: “Me chame de EU SOU!” – e cá pra nós, você acha mesmo que essa pequena frase consegue resumir a imensidão do nosso Deus? Pra mim, palavras não podem expressá-Lo!

Posso chamar Jesus de “você”? O que a Bíblia diz?

Enfim, posso chamar Jesus de “você” ou tenho que chamá-Lo de “Tu”? Bem, vamos à Bíblia?

Particularmente, eu duvido que isso faça qualquer diferença para o Senhor, afinal, reverenciá-Lo com palavras e ofendê-Lo com atitudes é algo incompatível, não é? Naquele dia, muitos o chamarão de Senhor e Ele sequer sabe quem são esses. Mas há um ponto crucial na questão.

A Bíblia diz: “Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que é que vocês, então, como se ainda pertencessem a ele, se submetem a regras: ‘Não manuseie!’ ‘Não prove!’ ‘Não toque!’? Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos.” (Cl. 2.20-22).

Nós já estamos cansados de saber que usos e costumes simplesmente passam! E mais, eles atrapalham por demais a nossa fé! Por que? Oras, o próprio apóstolo explica na continuação do texto: “Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne.” (Cl. 2:23).

Por isso, eu pergunto, você acha que chamar Jesus de “Tu” faz de você alguém mais reverente do que o adolescente que canta “Só quero… só quero ver Você”? E mais, você acha que há alguma diferença entre o anseio deles e o seu em “A face adorada de Jesus verei. Com a grei amada, no céu estarei!”?

(“Pai, o que é grei?”)

Mas calma, #TimeVoce! Você acha mesmo que é chatice dos seus pais odiarem ouvir canções que chamam o nosso querido Jesus de “você”? Você tem que entender que a vida inteira eles se referiram ao Senhor como “Tu” e isso está tão enraizado em suas mentes quanto a história de uma certa apresentadora que chamava o Eterno de “O cara lá de cima” porque não podia pronunciar o nome Dele, já que tinha contrato selado com o lado negro da força. Mas me parece que esse contrato foi rescindido há alguns anos (rs).

Além disso, não se trata apenas de respeito. Trata-se de mandamento bíblico. Sim, galera, mandamento: “…tenham cuidado para que o exercício da liberdade de vocês não se torne uma pedra de tropeço para os fracos. (…) Assim, esse irmão fraco, por quem Cristo morreu, é destruído por causa do conhecimento que você tem. Quando você peca contra seus irmãos dessa maneira, ferindo a consciência fraca deles, peca contra Cristo.” (I Co. 8:9-12).

Você pode torcer o nariz o quanto quiser, isso é Bíblia! Gostando ou não, o mais prudente é você reservar os louvores “a Você” para a reunião dos jovens, da galera. O que te custa!? Porque se te custa tanto assim fazer isso e você TEM que tocar Souguellis, Alcântara ou Casa no domingo à noite, você não é adorador, você é fã! E mais, me parece que você não quer trazer as pessoas para perto, você quer segregá-las, e isso é rebeldia. Quer chamar Jesus de “Você”? Beleza, mas lembre-se de uma coisa: “…vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; pelo contrário, SIRVAM uns aos outros mediante o amor.” (Gl. 5:13)

O verdadeiro ministro de louvor não canta o que gosta, canta o que edifica! O adorador autêntico não impõe, ele SERVE!

Sim, eu sei que a questão é complexa e que não se resolverá num simples artigo como esse, mas que o amor de Cristo nos constranja a ter sabedoria para lidar com o tema, com respeito, carinho uns pelos outros e muito temor ao Senhor.

Espero ter contribuído em sua jornada.

No amor do Pai,

Roger

Quem leu esta reflexão também gostou de

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *