Susan Boyle é feia… ou somos nós?

Essa foi a manchete do jornal “The Guardian” sobre o maior fenômeno da internet dos últimos anos. A participação de Susan no programa Britain’s Got Talent foi algo surreal. Cinquentona, desempregada e fugindo a todo padrão de beleza e estética da sociedade, Susan silenciou e continua silenciando milhares de pessoas com sua voz angelical. Ao assistir à apresentação de Susan Boyle pela primeira vez, um texto da Bíblia me veio à mente como uma flecha:

“Mas temos este tesouro em vasos de barro, para mostrar que esse poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós.” II. Co. 4.7

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Que Susan Boyle foi uma gota de graça num oceano de preconceito e hipocrisia todos nós já sabemos. O desdém do apresentador Simon Cowell já nos era familiar pelo American Idol. A reação da plateia ao ver Susan também já era esperada, já que essa certamente seria a nossa. Contudo, o conto de fadas que Susan está vivendo deve-se primordialmente ao fato de ela ter um talento imensurável, embora estivesse escondido. Imagine porém, que nesse conto um feitiço caísse sobre nossa donzela (ela nunca beijou) e esta perdesse sua doce voz. O que seria de Susan? É provável que a srta. Boyle fosse esquecida com a mesma velocidade com a qual atingiu-nos em sua formidável apresentação. A verdade é que, num primeiro momento, admiramos e perdemos o fôlego não pela castidade ou simplicidade da escocesa que já virou estrela nessas últimas semanas, mas primordialmente pelo seu talento. E é aqui que mais uma vez me identifico com Susan. Não, não sou nenhum Pavarotti, nem mesmo um músico profissional, mas reconheço que tenho alguns talentos. E são esses talentos que muitas vezes me trazem a ilusão de ter amigos. Explico.

Não foram poucas as vezes que me senti usado em meus dons. Pessoas que se aproximaram de mim por conta de uma necessidade, à qual, de alguma maneira, eu podia suprir, fosse tocando, escrevendo, produzindo ou mesmo divulgando. Quando isso acontecia (ou acontece) em troca de alguns dividendos, maravilha! Serviço prestado, dinheiro no bolso. O problema é quando o escambo é na base da pseudo-amizade. E mais, quando o serviço é interrompido, sinto as consequências da quebra de contrato – sem serviço, sem amizade. Como diria meu amigo Alan Brizotti: “amizade que acaba, nunca começou”. Constatação polêmica, mas lógica do meu ponto de vista.

Ser admirado por aquilo que realizamos é gratificante. Trazer um pouco de graça e esperança àqueles que nos cercam é, no mínimo, cumprir o nosso papel na carreira cristã. Receber elogios por um bom trabalho realizado é tão saudável quanto um pouco de ar fresco pela manhã, claro que se este for muito intenso pode nos resfriar, mas sendo bem dosado, faz bem. Contudo, essa brisa torna-se tempestade quando tudo o que algumas pessoas enxergam são nossos talentos. Claro, não é o mesmo que ter dinheiro, mas quem se importa com dinheiro quando o talento gera satisfação pessoal e soberba. “Quero ser amigo de Fulano, porque ele é amigo do talentoso Beltrano”. “Preciso ser amigo de Sicrano porque ele está nos grandes eventos e pode nos abrir uma porta”.

Se Susan queixava-se de viver solitária em um vilarejo, pode ter certeza que agora ela está cercada de “amigos”. A hipocrisia pode ter perdido o fôlego por alguns instantes naquela apresentação, mas não demorou muito para exalar seu mal hálito novamente.

Que possamos ser amados ou odiados por aquilo que somos em nossa essência, e jamais por aquilo que temos ou carregamos nesses vasos de barro.

Com um suspiro de lamento,

 Roger