Emaús

Era domingo, mas eles não tinham ido ao culto. A angústia era tão profunda que eles acabaram discutindo. Claro, quem está ferido fere.

– Você não sabe nem o que tá falando! Eles não tinham o direito de matá-Lo!
– Mas, Cleopas, eu não disse que eles “tinham o direito”, eu só disse que se a gente não tivesse deixado Ele sozinho lá no…
– Ei, sobre o que vocês estão discutindo?

Cleopas estava tão agitado, que acabou sendo grosseiro com o desconhecido que se aproximara: “Aff! Você tá muito mal informado, hein? Que foi, tava preso? Porque até os presos ‘tão sabendo…”. Cleopas baixa a cabeça e uma lágrima lhe escapa. Para e olha para trás em direção ao nada que lhe restara. O pretérito toma-lhe a fala:

– Ele era um profeta, falava tão bem… nós tínhamos esperança nEle! Nossos amigos foram ao túmulo e chegaram com uma história de que Ele estava vivo, mas ninguém O viu. Eles estão delirando, só pode!

Então, o Desconhecido também se agita: “Puxa, como vocês são sem-noção!”. Cleopas e o amigo se assustam, mas ficam curiosos. Aquela ousadia tinha que ter um motivo. E por quase 3 horas, aquele [até então] Zé Ninguém lhes dá uma aula incrível de Antigo Testamento. A agitação, a tristeza e a revolta agora dão lugar ao vislumbre. Os amigos estavam ainda envolvidos naquela conversa tão gostosa e cativante quando o Desconhecido concluiu: “Mas é isso… a gente se vê por aí…”

– Irmão, tá tarde! Aonde você pensa que vai!? Por favor, toma um café com a gente. A Maria fez pão!

Nós temos vivido uma espiritualidade refém do templo. Sim, cultuamos ao Eterno numa casa de tijolos, mas o Espírito não habita lá. A igreja anda. A igreja fala. A igreja se conecta. A caminhada até Emaús é prova de que a agitação dos nossos corações não impede o Seu falar. Mesmo quando aparentemente Ele não está ali, Ele está. Ele está no café, no partir do pão, no lamento, na risada, na poeira do caminho que muitas vezes nos sufoca. Ele está!

Emaús, caminhada sem holofote, sem musiquinha de fundo, sem saber se Jesus está ali ou não. É a espiritualidade do pé no chão, da trivialidade, do café na padaria, mas que no fim do dia faz arder o coração.

Mas é isso… a gente se vê por aí!

No amor do Pai,

Roger